A história do obelisco da praça, em frente à igreja, que nesse dia 15 de setembro completou 80 anos

A Escultura Pública de Porto Alegre (excerto) - José Francisco Alves

A Escultura Pública de Porto Alegre (excerto) - José Francisco Alves

Com publicações antigas em jornais da época, cujos textos seguem transcritos para uma melhor leitura, conheça essa parte da história de nosso bairro. Agradecemos a colaboração de Vagner Eifler, quem nos enviou os materiais e possui em seu álbum no Facebook mais fotos e comentários, disponíveis nesse link.

Correio do Povo - 17-09-2015 (pg.7)

Uma homenagem aos heróes de 35 e ao governador do Estado

 Foi prestada, ante-hontem, pela população de Belém Novo – Na praça, realizou-se a inauguração de um obelisco

Ante-hontem, Belém Novo esteve em grandes festas, por motivo da homenagem que prestou aos heróes de 35 e ao governador do Estado, inaugurando um obelisco na ​praça daquelle povoado, aonde affluiram numerosas pessoas dali e desta capital. Com esses actos tambem se iniciaram as commemorações do Centenario Farroupilha, que, neste momento, está fazendo vibrar de intenso enthusiasmo todo o Rio Grande do Sul. Do que foi a festa, damos abaixo um rapido resumo, tendo á mesma comparecido o general Flores da Cunha, governador do Estado, acompanhado do seu assistente militar, major Guasque de Mesquita; dr. Carlos Heitor de Azevedo, secretario da Fazenda; dr. Paulo Bozano, representando o prefeito municipal; dr. Armando Severo, representando o director geral da Instrucção Publica; coronel Canabarro Cunha, commandante geral da Brigada Militar; deputado Francisco Correia; representantes da imprensa local e autoridades dos municípios visinhos. Feita a recepção ao governador do Estado, por uma commissão, tendo á frente o sub-prefeito, sr. Rivadavia Correia Sobrinho, deu-se inicio á solemnidade com

O DISCURSO DO GENERAL BORGES FORTES

que foi o seguinte e mereceu calorosos applausos de todos os presentes: "Exmo. sr. general Flores da Cunha, dignissimo governador do Estado. Illmo. sr. major Alberto Bins, operoso prefeito municipal. Exmas. senhoras. Meus concidadãos: A população de Belém Novo, acompanhando o gesto patriotico que se estende por todo o Rio Grande do Sul, de commemorar o primeiro Centenario da Revolução Farroupilha, inaugura hoje o modesto mas significativo monumento que vêdes, como um preito de gratidão e reconhecimento aos heroicos brasileiros que combateram a pela liberdade e direitos de seus concidadãos representados na personalidade mascula de Bento Gonçalves, o chefe incontestado da revolução. Para dizer-se o que foi esse movimento, é quasi necessario ir-se ao inicio da nossa historia e procurar nas luctas de portuguezes e hespanhóes a genese das campanhas que se seguiram, ora pela posse do territorio, ora pelas posições de mando, administração e representação. A conquista do territorio começou nas margens do rio da Prata, pela posse da Colonia do Sacramento e posteriormente pela ampliação do territorio do actual Rio Grande, naquella época, terra de ninguem. A investitura de D. Manuel de Salcedo sitiando a Colonia; resistencia offerecida pelo brigadeiro Antonio Pedro de Vasconcellos, acudido pelos governos do Brasil e Portugal, deixaram-nos senhores daquelle territorio ainda por muito tempo, graças principalmente ás medidas tomadas por Gomes Freire e o brigadeiro Silva Paes, que deixaram traços indeleveis da sua actuação no sul do Brasil. Ao segundo devemos a maior parte do territorio do Rio Grande, adjudicado á corôa de Portugal; foi o fundador do presidio de Rio Grande, de onde irradiaram suas forças para a conquista do territorio que hoje fórma a nossa gleba amada. A mesma lucta para a posse do territorio, entre brasileiros e hespanhóes, deu-se entre brasileiros e portuguezes, para administrar e dirigir os destinos do nosso paiz, e foram estas principalmente as causas que nos fizeram enfrentar, quer no norte, quer no sul do Brasil, seus dominadores em bem da liberdade e nossos direitos. É o espirito de brasilidade que acorda cedo com a nacionalidade, alliado ás idéas novas que a inconfidencia mineira derramou e espalho no paiz com o sacrificio de seus martyrisados precursores. Em 1817, são os pernambucanos que proclamam um governo independente e republicano causado pelas mesmas razões – rigor das autoridades portuguezas e extorsão dos bens de brasileiros. Em 1824, nova manifestação republicana com a proclamação da República do Equador, já em pleno regime constitucional, mas que vem ainda mais uma vez demonstrar que a geração nova inspirava-se em principios novos, bebia doutrinas recentes nos periodicos e livros estrangeiros que, quanto mais prohibidos pelas autoridades maior influxo, valor e verdade pareciam contar e mais sorriam aos vôos ardentes da primeira idade dos homens. A America do Norte desenvolvia-se através do governo republicano juvenil e robusta, cujo progresso em todos os sentidos devia falar ás intelligencias. Ao redor do Brasil arquejavam as colonias hespanholas em luctas sanguinolentas pela sua independencia, até conseguirem seu “desideratum”. Haviam  influido poderosamente no espirito dos rio-grandenses todos esses quadros de sacrificios e abnegações que visinhos e longinquos exigiam pela sua liberdade e fórma de governo. Sua situação geographica de sentinella avançada do imperio no sul do paiz obrigou-os a intervir com bens e pessoas nas luctas que ali se travaram, quer no protectorado e posteriormente na incorporação do Estado Oriental, como provincia do Brasil. No entretanto, ao povo que acudia a todas essas luctas não eram  dadas as devidas compensações e deferencias. Existiam organados dois partidos – os retrógrados ou absolutistas e os liberaes, chefiados estes por Bento Gonçalves da Silva; governava a província o dr. Mariani, mal visto pelos liberaes, a quem perseguia e excluía das posições de mando e representação. Após intensa lucta política consegue-se a substituição de Mariani pelo dr. Fernandes Braga, liberal de idéas avançadas e que durante os primeiros tempos de sua administração contou com o apoio e estima de seus correligionários, mas tornando-se exaggerado e tolerante, procurando governar com gregos e troyanos, foi desmerecendo da confiança geral, aggravada pela acção violenta de seu irmão Pedro Chaves. Os liberaes resolveram sua deposição, e a 20 de setembro deram o brado de revolta, entrando, a 21, em Porto Alegre, fugindo Fernandes Braga para o Rio Grande. É esse o inicio da campanha libertadora que culminou, depois, com a proclamação da Republica de Piratiny. Não cabe neste momento pormenorisar os actos e feitos da grande campanha que os farrapos sustentaram contra o império e suas forças, porque Ella está no conhecimento e no coração de todos os rio-grandenses, taes os livros, escriptos e descripções espalhados e lidos avidamente nas escolas e associações, no intuito de tornar sabidas as elevadas causas da rebellião. Igualmente é motivo de orgulho para o Rio Grande dizer-se que os farrapos fizeram prodigios para manterem-se durante dez annos em armas em prol de seus ideaes e só deante do imperativo de uma guerra externa consentiram depor as armas após um tratado de paz honroso em que viram reconhecidas muitas de suas pretenções. A actuação de Bento Gonçalves e seus heróicos companheiros da jornada farroupilha é guardada como um talismã sagrado em que a honra, o civismo, o heroísmo, o desprendimento e todas as virtudes cívicas apparecem e se desenvolvem com vigor e estoicismo jamais ultrapassados. É a esses heróes que a alma rio-grandense rende hoje seu culto de gratidão e respeito. Em Bento Gonçalves podemos e devemos encarnar o typo rio-grandense rebelde a todas das dominações, pois que os gaúchos formam um typo ethnico original formado no meio ambiente; nascido numa fazenda, criado na liberdade do pampa gaúcho, habituado á vida simples e pura das estâncias, acostumou-se a não ter outra índole senão o amor á liberdade e defesa do solo pátrio. Dahi a formação de seu caracter probo, justiceiro e patriota, que se manifestou não só na chefia inicial como durante o período revolucionário, mau grado desentendimentos e dissabores que curtiu de seus amigos em diversas phases da lucta; cheve da revolução, presidente da Republica, tudo abdica para acalmar os ânimos exaltados contra elle e não comprometter a causa que com tanto amor ideára e levára pelo caminho da gloria, através renhidos combates e arriscadíssimas empresas. Tudo deu á revolução e nada della pediu; entrou rico e sahiu na miséria! E é esta uma das grandes glorias do heróe de 35, symbolo augusto de nossa terra e de nossa gente. Não é sómente á memória dos heróes de 35 que este monumento commemora; há ainda outras pessoas dignas e merecedoras de figurarem com aquelles heróes. Em primeiro logar referir-me-ei a Ignacio Antonio da Silva, o doador do terreno em que assenta esta pittoresca povoação, que está se tornando uma estação de repouso e recreito pelo seu maravilhoso clima, bello aspecto de suas várzeas e morros, ao lado das magestosas águas do Guahyba. Bem comprehendeu aquelle patrício quanto bem proporcionaria áquelles que viessem se acolher a tão benéfico torrão que a sua mão dadivosa fazia mercê. Á memória desse nobre rio-grandense, a população de Belém enche de bênçãos e agradecimentos, deixando perpetuado seu nome neste granito eterno. Em segundo logar, refirmo-me ao operoso prefeito deste município, major Alberto Bins, que, incluindo no programma das realizações que tem levado a effeito em sua adminitração, o financiamento da estrada de rodagem que nos liga á capital do Estado; obra de vulto e benemerência, não poderia ser esquecida nesta hora de gratidão e de reconhecimento. Propositalmente, deixei em ultimo logar falar da outra pessoa que o monumento homenageia – o exmo. General Flores da Cunha. Sr. General: os grandes problemas que a propaganda republicana pregou, taes como a federação dos Estados, a autonomia municipal, a separação da Igreja do Estado, casamento civil, a secularisação dos cemitérios, foram resolvidos, bem ou mal, pela Republica velha, e delles a nova ordem de coisas não tem que cogitar; mas duas grandes preocupações, quiçá difficeis problemas, tem que resolver: refiro-me á questão financeira e á ordem econômica. A monarchia deixou-nos uma herança pesada, a que os maus governos foram accrescendo tal a das dividas externas, substituídas por outras cada vez maiores, para saldar as menores, sem a preoccupação do dia seguinte e da enorme carga que atiravam ao hombros das gerações vindouras. Se obras houve que se aproveitaram desses capitaes emprestados, grande parte delles foram postos fora sem vantagem alguma para o paiz, e o nosso Estado não poderia deixar de soffrer as conseqüências desses desmandos administrativos. O inicio da Republica no Rio Grande do Sul foi todo elle absorvido na sua organização política, sob os novos moldes, e em seguida prejudicado pelas luctasarmas que ensangüentaram seu solo, ora por divergência de ideaes, ora pelas razões pessoaes de manutenção de posse das posições. Não entro nos detalhes destas luctas; quero apenas lembral-as como uma razão das coisas que actuaram na nossa demora em acudir aos problemas da riqueza publica, na paralysação de nossas industrias, commercio, pecuária, hygiene e os mais rudimentares princípios de applicação da sciencia de governar. Pois bem, sr. General, foi por vermos que a preoccupação do vosso governo tem sido a de cuidar da solução dos problemas acima citados, que fizestes jus á nossa benemerência: cogitastes de diminuir a nossa divida externa adquirindo títulos de elevado valor; enveredastes pela construcção das estradas de rodagem e linhas férreas; amparastes das industrias com auxilio de leis e pecúnia; a agricultura tem em vós decidido protector, amparando-a com dinheiro e credito nos hiatos de paralysação; tudo isto com o fim de assegurar a riqueza e propulsar elementos para o bem-estar econômico e financeiro do Rio Grande. Administrar com o auxilio de todos os rio-grandenses em um esforço uno e patriótico, para vencer e recuperar o tempo perdido, eis o vosso programma de governo. O vosso coração generoso, a vossa intelligencia clara e dynamica, o grande amor que tendes ao Rio Grande são factores que facilitam a sua realização. E Belém Novo, logar esquecido no mappa do Rio Grande do Sul até o momento em que aqui viestes pela primeira vez, já recebeu desta sábia orientação os primeiros benefícios. Ali está o edifício do grupo escolar, construído por ordem vossa, o melhoramento de suas estradas, como attestado da vossa orientação como governante. O povo desta terra, como uma prova da sua gratidão, cultua nesta festa os vossos serviços, eternisando no bronze a vossa effigie. Salve Flores da Cunha!”

O MONUMENTO

 Entre applausos, foi descoberto, depois o monumento que é de bello aspecto architectonico, tendo, numa das faces, uma placa de bronze com as effigies de Bento Gonçalves e do General Flores da Cunha. Embaixo vem os dizeres: “Ao general Bento Gonçalves, symbolo de uma época e patrono do culto de nossas tradicões [sic]. Ao general Flores da Cunha, benemérito bemfeitor de Belem Novo e legitimo representante da estirpe farroupilha”. No centro se encontra o escudo rio-grandense. No pedestal, ha ainda, outras duas placas, uma com as seguintes palavras: “Ao prefeito major Alberto Bins, gratidão pelo seu empenho em prol do progresso deste districto” e outra “Ao doador da sede deste districto, Ignacio Antonio da Silva, homenagem de gratidão”.

FALA O GENERAL FLORES DA CUNHA

 Terminando o acto acima, o general Flores da Cunha pronunciou um discurso varias vezes entrecortado de applausos. Sua oração publicamol-a em outro logar desta noticia.

INAUGURAÇÃO DE UM RETRATO

 Acompanhado de sua comitiva, o governador passou depois entre alas de 130 alumnos do Grupo Escolar Evarista Flores da Cunha em direcção ao edifício desse estabelecimento de ensino, sendo em sua passagem vivado pela creançada que atiraram flores sobre s. exa. Recebido pelas professoras tento a frente a directora E. Carvalho, convidou o dr. Armando Severo para inaugurar o retrato da patrona do collegio.

FALA O DR. ARMANDO SEVERO

 Depois de descerrar o quadro com o retrato da exma. sra. d. Evarista Fores [sic] da Cunha, patrona do grupo escolar e progenitora do governador, tomou a palavra o dr. Armando Severo, delegado escolar e representante do director geral da instrucção publica que disse estas breves palavras: Esta honra foi para mim tão inesperada quanto é excelsa. Mal sabia eu, quando aqui vim tocado pelo coração e representando o sr. Director da Instrucção Publica do Estado, que o destino me conduzia para sentir e gozar a maior alegria cívica da minha vida: Descerrar a cortina que encobria a moldura que guardará para todo o sempre, como num apertado e indissoluvel abraço, a effigie daquella que foi a maior das matronas gauchas, d. Evarista Flores da Cunha. Filho de Quarahy, em cujas lindes nasceram os Flores da Cunha, tive a honra de conhecel-a e apreciar-lhe as immensas virtudes. Descendente de illustre família fonteirista, cujo tronco emerge dos primeiros povoadores do Rio Grande do Sul, daquelles que forjaram a nossa patria a golpes de audacia e em arrancadas gloriosas dilataram e firmaram os seus limites, delles herodou [sic] toda a bravura e o destemor, todo o patriotismo sadio, toda fortaleza de animo que eram o apanagio dos nossos maiores. E estes sentimentos aprimorados e crystalisados no cresol de uma bondade sem par, de um immenso espirito de renuncia e de sacrificio , de um grande amor e de uma inabalável fé – foram a semente preciosa que, germinando sob os raios mornos do nosso sol bemdito, lançou para a luz as vergonteas de ouro que foram os seus filhos, aos quaes ella transmittiu, nos carinhos maternaes, todo o heroísmo da nossa raça, toda a galhardia mo [sic], seus enthusiasmos, suas virtudes, seu incomensuravel coração, do quaes o maior de todos se aninhou e pulsa sobre o peito varonil de José Antonio Flores da Cunha. Este é o teu melhor elogio, mãe admiravel e bemdita entre todas as mulheres rio-grandenses. E posto que estás no ceu, porque muito amaste, muito soffreste e tanto bem fizeste, pede ao Senhor pela felicidade de nossas mães, de nossas esposas e de nossos filhos e implora-lhe em seus nome para que conserve aqui, por longos annos a fio, o teu José Antonio muito amado, para gloria maior do Rio Grande e felicidade da nossa Patria.

FALA UMA PROFESSORA

 Tomando a palavra, a professora exma. sra. Cardoso, em nome de suas collegas, pronunciou um discurso, dizendo, em resumo, o seguinte: “As excelsas virtudes que sempre ornaram o adamantino caracter de nossa patrona, a felicidade, as alegrias e a prosperidade aqui reinantes, neste estabelecimento de ensino publico do Estado, como decorrencia logica das bençãos que nos advêm do seu espiritual patrocinio, adivinhadas pelo seu benemerito e illustre filho, como governante e como chefe de um grande e glorioso Partido, motivam, justificam plenamente a inauguração, neste recinto, do quadro photographico da exma. sra. d. Evarista Flores da Cunha, insigne patrona deste Grupo, como justissima e assás merecida homenagem posthuma á sua pessoa, sempre com veneração e carinho lembrada em nossa mente e amada em nosso coração. A opportunidade desta homenagem não a teriamos melhor senão justamente quando, aqui, neste districto, neste mesmo dia, exalçam-se com fervor os meritos do eminente cidadão e incansavel estadista general Flores da Cunha, dilecto e por todos os titulos digno e amantissimo filho da veneranda senhora que nos constitue um motivo de elevado orgulho e mesmo um sacrosanto culto, fortalecendo-nos a fé e a esperança. Os benefícios a nós dispensados, a este Grupo, ou, melhor dito, á população infantil de Belém Novo, pelo exmo. General Flores da Cunha, o seu zelo e o seu grande amor pela instrucção e educação do povo da nossa amada Terra, a bondade do seu coração e os verdadeiros sacrificios que tem feito pelo bem de todos, no exercicio sereno e sabio da sua alta funcção publica de emerito governante deste Estado, tudo nos leva, com enthusiasmo e serenidade, a associar-nos ás homenagens que hoje se lhe prestam nesta localidade. Não podiamos, d’outra parte, neste faustoso dia, esquecer o grande cidadão que, em face de um memorial subscripto por muitas creancinhas, pedindo o pão d’alma, pressuroso correu ao encontro dos seus infantis e louvaveis desejos, mandando construir este edificio modelo, para nelle se ministrar, como se ministra, o alimentos [sic] por ellas tão ardentemente desejado. Vale por uma consagração sómente esse gesto do inclito general Flores da Cunha. E, por isso, aqui estamos, com a alma genuflexa, esteriorizando a nossa imensa e eterna gratidão, consubstanciada nesta homenagem, para a qual convergimos todo o calor do nosso enthusiasmo, todo o extase da nossa veneração, toda a grandeza do nosso respeito. Acceite, pois, s. excia. este penhor eterno da nossa confiança e da nossa fé.”

A RESPOSTA DO GENERAL FLORES DA CUNHA

 agradecendo a homenagem á memoria da sua progenitora, foi a seguinte: “Agradeço á senhora directora e ás professoras deste collegio a homenagem prestada á memoria da minha querida mãe. Estou certo de que não é pelo facto de eu occupar o cargo de governante do Rio Grande do Sul e para me ser agradavel que as senhoras professoras tiveram a iniciativa deste preto á minha saudosa progenitora. Não me orgulho de me haver encontrado, hontem, porventura, ou de me encontrar, hoje, num posto destacado. Mas, neste momento, posso dizer-vos que me orgulho de assistir a este acto, pois a homenagem corresponde prefeitamente a quem é prestada. Basta affirmar-vos que teve esta santa creatura dez filhos e que, não havendo nascido rica, se submetteu ao rude sacrificio de viver quase um quarto de seculo, da nossa gente, com seu patriotis[mo] isolada numa estancia, trabalhando, esforçando-se no cuidado e na educação dos seus descendentes. Foi sem duvida uma sacrificada pelos seus entes queridos. Tive um pae austero, bom, de grandes impulsos, daquelles que nascem do coração. Ella soube tambem transmittir-nos essas qualidades, imprimindo-nos os sentimentos paternos de amor ao Rio Grande e de noção exacta do cumprimento do dever. Em 1923, quando já desapparecera meu velho progenitor, perdi em combate meu antepenultimo irmão, morto brava e heroicamente no campo da honra. Julguei que minha idolatrada mãe não supportaria essa grande dôr. Ella, porém, resistiu a esse transe com a mesma energia, a mesma firmeza das velhas damas romanas. Viveu ainda alguns annos, dando prova de que era uma verdadeira senhora rio-grandense, pelas suas virtudes estoicas e sua capacidade de sacrificio.” Depois de inaugurado o quadro, os alumnos representaram, recitando poesias épicas. Ao findar as representações, foi entregue ao general um “bouquet” de flores. Falou, então, em nome do P. R. L. de Belém Novo, o sr. Alberto Moren, que fez uma saudação ao general Flores da Cunha, como chefe desse partido. As ultimas palavras do orador foram abafadas por uma salva de palmas. E, entre vivas e applausos, o general Flores da Cunha, pelas 11,30 horas, dirigiu-se para esta capital. Foi servido aos presentes um succulento churrasco, regado com “chopp” e vinho. Á tarde, houve dansas, que foram marcadas ao compasso de uma banda de musica da Brigada, que foi contractada para abrilhantar as solemnidades. A commissão de recepção ás autoridades estava assim composta: capitão Rivadavia Correia Sobrinho, Luiz V. Bernardes, Alberto Morem, José Bernardes, Heitor Vieira e Olintho Borges.  
Correio do Povo - 17-09-2015 (detalhe fotografia)

Correio do Povo - 17-09-2015 (detalhe fotografia)

O discurso do governador em B. Novo

 Foi este o discurso que o governador do Estado pronunciou em Belém Novo: "Meus patricios. — Sou grato á linda homenagem que me tributaes neste momento, sendo que as bondosas palavras do vosso digno interprete, o general Borges Fortes, tocaram fundo o meu coração. Constato com prazer o enthusiasmo com que estas festividades se antecipam de alguns dias aos festejos officiaes com que o governo e o povo do Rio Grande vão commemorar o centenario da gloriosa epopéa farroupilha. Belém Novo conquistou a honra da primazia dessas homenagens, que vêm empolgando a alma gaucha, no justificado anseio de demonstrar todo o seu patriotico enthusiasmo e seu immenso carinho pela memoria dos denodados lidadores da epopeia gloriosa, entre os quaes se destaca a galharda figura de Bento Gonçalves. Devemos mostrar ao resto do paiz como aqui se cultuam as tradições daquella raça de centauros que tanto amaram e souberam defender o solo sagrado da patria, quando ainda o Rio Grande era praça da cobiça dos conquistadores. Assim se veio desenvolvendo e affirmando o patriotismo sem limites da nossa gente, cuja manifestação maxima se verificou em 35 e que foi um exemplo eloquente da vontade do Rio Grande de se governar com plena autonomia. Talvez me hajam criticado por ter, mais de urna vez, tentado a pacificação entre . partidos rio-grandenses, offerecendo aos meus adversarios altos postos na administração do Estado. Estou convencido de que só assim se poderá construir com bases inderrocaveis a felicidade do nosso amado Rio Grande, em se aproveitando a cooperação de todos os seus valores na obra commum. Quanto a mim declaro que, no dia em que não poder mais assim proceder, já não estarei governando a minha querida terra. O Rio Grande já não podia mais tolerar aquellas autoridades de sentimentos regressivos, de mentalidade colonial, que não se harmonizavam com a épocha em que foram escolhidos para governar. E não se podia submetter aos processos de administrar com a violencia, mas sim ter todos os seus direitos assegurados, afim de que o nosso povo não fosse quasi desconhecido, como era, do resto do pais. Faço este breve bosquejo retrospectivo para dizer, como é meu costume, em praça publica, do quanto me orgulho em governar os rio-grandenses, para dizer do quanto me sinto feliz de estar sempre no meio delles. Alguns hão de me criticar, repito, por buscar a collaboração de meus proprios adversarios. Mas esquecem que temos de voltar sempre os olhos para a historia, porque em todos os tempos se nos impõem o esforço collectivo, a collaboração de todos para maior felicidade da nossa terra e da nossa bôa gente. Não é com exclusivismo partidario que se engrandece e que se enobrece o governante. É, antes, indo procurar a collaboração de todos, que o governo se torna mais respeitavel, dando ainda satisfação plena dos seus actos á opinião publica. Si eu fosse apenas um executor, si não acceitasse suggestões de todos, si me deixasse tomar pelo amor proprio, pelo orgulho de que em geral se deixam dominar alguns homens publicos, eu nada teria feito em bem da minha terra. Não estou aqui para engrandecer-me pollitica e pessoalmente, porém para servir imparcialmente, com justiça. os maiores interesses do Rio Grande, e corresponder dessa maneirar [sic] á confiança que os meus patricios depositaram em mim. Iniciadas as commemorações farroupilhas, coube a Belém Novo a gloria de, em primeiro logar, erguer um monumento. Ao mesmo tempo em que é prestado um preito de justiça á memoras dos gloriosos farroupilhas, tambem se assignala que os rio-grande-ses de hoje não desejam obliterar no seu espirito aquelles leitos épicos, de que só nos podemos ufanar. Espero receber, dentro de poucos dias, o exmo. sr. presidente da Republica, que virá presidir as nossas commemorações e inaugurar a grande exposição, que será uma eloquente demonstração, sem duvida, do trabalho de todos os nossos coestadoanos. Terão, então, os meus patrícios, opportunidade de dar expansão á alegria cívica que os possue mui justamente. Quero, porém, rematar estas ligeiras palavras pedindo a todos que se recolham e meditem um pouco no devotamento, no sacrificio dos que fizeram a gloria desse acontecimento, que agora celebramos.
Correio do Povo - 15-09-1935 (excerto p.12)

Correio do Povo - 15-09-1935 (excerto p.12)

Fonte: Uma homenagem aos heróes de 35 e ao governador do Estado. Correio do Povo, Porto Alegre, 17 de setembro de 1935. Secções, p.7. • A Escultura Pública de Porto Alegre – História, Contexto e Significado. José Francisco Alves, 2004

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